
Zambiapungas
Os espíritos brincantes
Na madrugada do Dia de Todos os Santos, eles saem pelas ruas das velhas cidades tocando tambores, enxadas, búzios e berra-bois. Assustando, perturbando e brincando — em nome de Nzambi.
O que é
Uma tradição que
não parou de tocar
Os Zambiapungas são grupos de manifestação da cultura popular nascidos da diáspora africana — do Congo, do Baixo Congo, da Nigéria e de Angola. Atuam no Baixo Sul da Bahia há mais de dois séculos e continuam em atividade. Saem na escuridão da madrugada, em cortejo, para agradecer aos filhos de Nzambi, o Deus supremo, e à raiz da sua cultura.
Registros em vídeo
O cortejo em movimento
Cinco registros do grupo em atividade — na praça, na rua de paralelepípedo, no batuque e no toque de búzio. Toque para assistir com som.
Na praça, à noite
O grupo se apresenta sob as luzes, tambores e enxadas marcando o toque.
Perto do brincante
Detalhe das fantasias e do berra-boi tocado no meio do cortejo.
O cortejo pela rua
Os brincantes atravessam a cidade em fila, tambores a tiracolo.
No casario antigo
Cortejo pelas ruas de paralelepípedo, com moradores acompanhando.
A roda dos tambores
Capacetes coloridos e máscaras giram no batuque do grupo.
A raiz
De onde vêm
os espíritos
A história contada no livro Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes, de Claudio Mendes.

Veio a força, veio a luta, veio a fé
Quando os ancestrais foram trazidos para cá, arrancados de suas terras e de seus reinos, não vieram sozinhos. Veio junto Nzambi-a-Mpungu, o Deus Supremo, o maior, o das alturas.
Vieram de várias nações — do Congo, da Nigéria, de Angola —, quase todos de etnia bantu, e com eles vieram suas raízes, culturas, hábitos e línguas. Vieram acorrentados, famintos e silenciados. E ainda assim oravam.
“Tentaram separar os nossos jogando cada um distante do outro, para nos enfraquecer. Não conseguiram e, juntos, ficamos mais fortes.”Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes

A reza em silêncio, o batuque na fogueira
Longe da mãe África, muitos dos escravizados morreram. Os povos bantu, ao perder um parente, o veneravam e cultuavam seus defuntos. Quando tentaram tirar-lhes a fé nos ancestrais e nos encantados, eles rezavam em silêncio, invocavam — e eles vinham.
Vinham os que foram chamados. E vinham também os que não foram chamados: estes tinham de ser mandados embora. Às vezes não queriam ir e ficavam vagando por ali, assustando, perturbando, brincando. Todos eram filhos de Zambi. Uns bons, outros menos.

Os que ficaram presos na terra
Muitos dos nossos eram rebeldes: brigavam, lutavam, fugiam. Foram se juntando a outros fugitivos em mocambos e quilombos. Mas os espíritos ficaram ali, presos na terra, quando deveriam ficar livres no céu, no orum.
Os brancos, de longe, olhavam os pretos reunidos em nome de Nzambi cantando, dançando e falando línguas que não entendiam — e tinham medo. Prendiam, torturavam, silenciavam o canto, a reza, o batuque, e apagavam a fogueira.

Mais batuque, mais fé, mais força
Para receber os que vinham em nome de Nzambi, tinha festa. Para mandá-los embora, também. Mas para afastar os que não queriam ir embora era preciso mais barulho: o tambor feito de tronco, o som agudo tirado das enxadas — as mesmas que aravam a terra —, o ronco do berra-boi, chorado como o mugir dos bois, e a trombeta do búzio grande retirado do mar.
“Os mesmos búzios que eram usados para chamar os escravizados para o trabalho.”Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes

Roupa branca, capacete e máscara
Para atrair as boas energias e os bons espíritos, usavam roupas brancas. Para afastar os maus, trapos de panos e papéis coloridos cortados em finas tiras, colados e amarrados nas roupas, e capacetes compridos em forma de cone — que davam a impressão de que eram mais altos e estavam mais próximos do céu.
E máscaras. Muitas máscaras, feias, que davam medo a todos e mais ainda aos que se achavam donos da terra e de tudo.
Anatomia do brincante
O que compõe
o cortejo
Na frente, a fantasia do morcego, símbolo da noite, e a do diabo, no abre-caminho. Atrás, os guias, os tocadores e as máscaras.

E lá vêm eles pela madrugada
Os moradores acordam com o som estridente das enxadas e saem às janelas para ver o cortejo. Adultos e crianças, escondidos atrás das fantasias coloridas, sem que ninguém saiba quem ali está — se é preto ou não, se são espíritos ou não.
Umas crianças com medo se escondem; a maioria corre atrás do diabo e do morcego. Só param com o dia clareando, para beber o lelê e comer o mungunzá.
Toda madrugada do Dia de Todos os Santos, 1º de novembro, e na véspera do Dia de Finados. Também no dia de muitos santos: São Miguel, Senhor do Bonfim, São Brás, São Benedito, São Francisco Xavier e Nossa Senhora do Rosário.
Nas ruas das velhas cidades do Baixo Sul da Bahia — Nilo Peçanha, Vila Velha, Boipeba, na ilha de Tinharé —, remanescentes de quilombos da região, passando em frente aos cemitérios e às margens do Rio das Almas.
Em agradecimento a Nzambi, o Deus supremo, e à raiz da sua cultura. Tocando e dançando para atrair os bons espíritos; tocando e dançando para afastar os maus. E sumindo de repente ao amanhecer.
Ê ô… ê ô!
O grito que anuncia o cortejoO dicionário
As palavras do cortejo
Termos bantu, quimbundo e da tradição popular do Baixo Sul, reunidos no livro.
O livro
Zambiapungas
Os Espíritos Brincantes

Primeira incursão de Claudio Mendes na literatura infantojuvenil: uma história afro-brasileira sobre os brincantes Zambiapungas, contada da ancestralidade bantu até a madrugada de hoje — com ilustrações em cores plenas e um dicionário das palavras do cortejo.
- AutorClaudio Mendes Oliveira
- EditoraBailer Books · 1ª edição, 2025
- Formato24 páginas · 20 × 20 cm · ilustrado
- ISBN978-65-5304-091-5
- ClassificaçãoLiteratura afro-brasileira · infantojuvenil
- TemasCultura afro-brasileira · tradições populares · patrimônio
Quem escreveu
O autor

Claudio Mendes
Pesquisador da cultura popular · Salvador, Bahia
Natural de Salvador, é pesquisador das manifestações da cultura popular, especialista em gestão social e patrimônio histórico e cultural, turismólogo, fotógrafo, gestor e produtor cultural.
Integrante do grupo cultural Zambiapunga da cidade de Nilo Peçanha desde 2003 — grupo que lhe deu a oportunidade de conhecimento, aprendizado e uma forte conexão com a sua ancestralidade afro-brasileira e a cultura popular tradicional.
Entre contos, ensaios e poesias, arrisca-se pela primeira vez na literatura infantojuvenil com esta história sobre os brincantes Zambiapungas.
@claudiomendesoliveira.oficial ↗