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Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes
Brincantes Zambiapunga em cortejo pela beira-mar, com capacetes coloridos, máscaras e tambores
Baixo Sul da Bahia · há mais de dois séculos

Zambiapungas

Os espíritos brincantes

Na madrugada do Dia de Todos os Santos, eles saem pelas ruas das velhas cidades tocando tambores, enxadas, búzios e berra-bois. Assustando, perturbando e brincando — em nome de Nzambi.

Role para descer

O que é

Uma tradição que
não parou de tocar

Os Zambiapungas são grupos de manifestação da cultura popular nascidos da diáspora africana — do Congo, do Baixo Congo, da Nigéria e de Angola. Atuam no Baixo Sul da Bahia há mais de dois séculos e continuam em atividade. Saem na escuridão da madrugada, em cortejo, para agradecer aos filhos de Nzambi, o Deus supremo, e à raiz da sua cultura.

+2séculos de atividade ininterrupta
3filas de tocadores: enxadas, búzios, cuíca e tambores
1º novmadrugada de Todos os Santos, véspera de Finados
Bantua matriz linguística e espiritual do cortejo

Registros em vídeo

O cortejo em movimento

Cinco registros do grupo em atividade — na praça, na rua de paralelepípedo, no batuque e no toque de búzio. Toque para assistir com som.

Vídeo 01

Na praça, à noite

O grupo se apresenta sob as luzes, tambores e enxadas marcando o toque.

Vídeo 02

Perto do brincante

Detalhe das fantasias e do berra-boi tocado no meio do cortejo.

Vídeo 03

O cortejo pela rua

Os brincantes atravessam a cidade em fila, tambores a tiracolo.

Vídeo 04

No casario antigo

Cortejo pelas ruas de paralelepípedo, com moradores acompanhando.

Vídeo 05

A roda dos tambores

Capacetes coloridos e máscaras giram no batuque do grupo.

A raiz

De onde vêm
os espíritos

A história contada no livro Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes, de Claudio Mendes.

01Ilustração de ancestral africano com túnica bordada e colares

Veio a força, veio a luta, veio a fé

Quando os ancestrais foram trazidos para cá, arrancados de suas terras e de seus reinos, não vieram sozinhos. Veio junto Nzambi-a-Mpungu, o Deus Supremo, o maior, o das alturas.

Vieram de várias nações — do Congo, da Nigéria, de Angola —, quase todos de etnia bantu, e com eles vieram suas raízes, culturas, hábitos e línguas. Vieram acorrentados, famintos e silenciados. E ainda assim oravam.

“Tentaram separar os nossos jogando cada um distante do outro, para nos enfraquecer. Não conseguiram e, juntos, ficamos mais fortes.”Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes
02Ilustração de roda noturna em volta da fogueira, com dança e espíritos em espirais azuis

A reza em silêncio, o batuque na fogueira

Longe da mãe África, muitos dos escravizados morreram. Os povos bantu, ao perder um parente, o veneravam e cultuavam seus defuntos. Quando tentaram tirar-lhes a fé nos ancestrais e nos encantados, eles rezavam em silêncio, invocavam — e eles vinham.

Vinham os que foram chamados. E vinham também os que não foram chamados: estes tinham de ser mandados embora. Às vezes não queriam ir e ficavam vagando por ali, assustando, perturbando, brincando. Todos eram filhos de Zambi. Uns bons, outros menos.

03Ilustração noturna com silhuetas de espíritos entre casas de quilombo

Os que ficaram presos na terra

Muitos dos nossos eram rebeldes: brigavam, lutavam, fugiam. Foram se juntando a outros fugitivos em mocambos e quilombos. Mas os espíritos ficaram ali, presos na terra, quando deveriam ficar livres no céu, no orum.

Os brancos, de longe, olhavam os pretos reunidos em nome de Nzambi cantando, dançando e falando línguas que não entendiam — e tinham medo. Prendiam, torturavam, silenciavam o canto, a reza, o batuque, e apagavam a fogueira.

04Ilustração de tambor de tronco e berra-boi, instrumentos do cortejo

Mais batuque, mais fé, mais força

Para receber os que vinham em nome de Nzambi, tinha festa. Para mandá-los embora, também. Mas para afastar os que não queriam ir embora era preciso mais barulho: o tambor feito de tronco, o som agudo tirado das enxadas — as mesmas que aravam a terra —, o ronco do berra-boi, chorado como o mugir dos bois, e a trombeta do búzio grande retirado do mar.

“Os mesmos búzios que eram usados para chamar os escravizados para o trabalho.”Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes
05Ilustração de brincante de mukixe rosa dançando ao lado de figura vestida de branco

Roupa branca, capacete e máscara

Para atrair as boas energias e os bons espíritos, usavam roupas brancas. Para afastar os maus, trapos de panos e papéis coloridos cortados em finas tiras, colados e amarrados nas roupas, e capacetes compridos em forma de cone — que davam a impressão de que eram mais altos e estavam mais próximos do céu.

E máscaras. Muitas máscaras, feias, que davam medo a todos e mais ainda aos que se achavam donos da terra e de tudo.

Anatomia do brincante

O que compõe
o cortejo

Na frente, a fantasia do morcego, símbolo da noite, e a do diabo, no abre-caminho. Atrás, os guias, os tocadores e as máscaras.

CapaceteChapéu comprido em forma de cone, colorido, feito de papel de seda.
MukixeAs roupas, as fantasias, o mascarado — o corpo coberto de tiras finas de papel colorido.
CaretaAs máscaras. Monstruosas, feitas de papel na forma de barro tabatinga e pintadas de preto e vermelho.
O morcegoVai na frente do cortejo. Simboliza a noite.
O diaboAbre caminho. De olhos grandes, chifres e dentes pontiagudos.
O guiaMestre que vai à frente e comanda os toques e a coreografia do grupo.
EnxadasInstrumento agrícola tocado com uma pequena vara de ferro. Som agudo, estridente.
Búzio grandeRetirado do mar, produz som de trombeta. Chama o cortejo.
Berra-boiSimilar à cuíca, feito de caixa de madeira e vara de coqueiro. Ronca como o mugir dos bois.
Tambor de troncoTronco retirado da árvore moanza. A base do batuque.
LelêMingau de arroz, leite de coco e açúcar, bebido nas portas dos moradores ao clarear o dia.
MungunzáCanjica de milho branco com leite de coco, açúcar, manteiga e canela.
Ilustração de moradores nas janelas assistindo ao cortejo passar pela rua

E lá vêm eles pela madrugada

Os moradores acordam com o som estridente das enxadas e saem às janelas para ver o cortejo. Adultos e crianças, escondidos atrás das fantasias coloridas, sem que ninguém saiba quem ali está — se é preto ou não, se são espíritos ou não.

Umas crianças com medo se escondem; a maioria corre atrás do diabo e do morcego. Só param com o dia clareando, para beber o lelê e comer o mungunzá.

Quando

Toda madrugada do Dia de Todos os Santos, 1º de novembro, e na véspera do Dia de Finados. Também no dia de muitos santos: São Miguel, Senhor do Bonfim, São Brás, São Benedito, São Francisco Xavier e Nossa Senhora do Rosário.

Onde

Nas ruas das velhas cidades do Baixo Sul da Bahia — Nilo Peçanha, Vila Velha, Boipeba, na ilha de Tinharé —, remanescentes de quilombos da região, passando em frente aos cemitérios e às margens do Rio das Almas.

Por quê

Em agradecimento a Nzambi, o Deus supremo, e à raiz da sua cultura. Tocando e dançando para atrair os bons espíritos; tocando e dançando para afastar os maus. E sumindo de repente ao amanhecer.

Ê ô… ê ô!

O grito que anuncia o cortejo

O dicionário

As palavras do cortejo

Termos bantu, quimbundo e da tradição popular do Baixo Sul, reunidos no livro.

Nzambi-a-MpunguDeus supremo dos homens.
ZambiapungasGrupos de manifestação da cultura popular original da diáspora africana, do Congo, Baixo Congo, Nigéria e Angola, que atuam no Baixo Sul da Bahia há mais de dois séculos.
BantuEtnia linguística. Passou a referir-se ao diverso contingente humano e cultural que se estabeleceu na África subsaariana.
MukixeRoupas, fantasias, mascarado.
CapaceteNo grupo, chapéu em forma de cone comprido e colorido feito de papel de seda.
CaretasTambém chamadas de máscaras.
GuiaMestre que vai à frente e comanda os toques e a coreografia do grupo.
Berra-boiInstrumento similar à cuíca, feito numa caixa de madeira e uma vara de coqueiro.
Búzio grandeRetirado do mar, produz som de trombetas.
Tambor de troncoTronco retirado da árvore moanza.
EnxadasInstrumento agrícola. No grupo, utilizado com uma pequena vara de ferro para tocar.
CapusMáscaras de pano tipo gorro.
TabatingaBarro, argila tirada do rio para fazer molde de máscaras.
EgunsEspíritos desencarnados de todas as naturezas. Para os bantu: Nvumbe, o espírito dos mortos.
InquicesDivindades cultuadas no Candomblé de Angola, correspondentes aos orixás.
VodunsDivindades veneradas na religião tradicional africana Vodun, originária do Benim, Togo, Gana e Nigéria. Intermediários entre o Deus supremo e os seres humanos.
MuxingibiO que invoca espíritos.
KuxingilaInvocar espíritos.
Mukita-sukúEnergia da noite (oculto).
NgoloEnergia.
NkisiEnergia divina, remédios.
NzilaCaminho, abre caminho, está na frente. Pambu Nzila: senhor dos caminhos, das encruzilhadas.
Mbonzo / BanzoTristeza.
KalunduEstado de espírito caracterizado por mau humor, irritabilidade ou nostalgia.
QuilomboLocais de aglomeração de escravizados fugitivos.
MocamboMoradia. Correspondente aos quilombos em algumas regiões.
CambianteComunidade quilombola localizada no município de Nilo Peçanha.
TinharéDo tupi-guarani: a ponta que penetra na água — ilha do Baixo Sul.
BoipebaIlha da região de Tinharé.
BoitaracaBorboleta de cor azul.
LelêMingau feito de arroz, leite de coco e açúcar.
MungunzáCanjica de milho branco cozido com leite de coco ou de vaca, açúcar, manteiga e canela.
MametuMãe. Forma de tratar a mãe de Nkisi no Congo-Angola ou Nengua.
Tata / TaataPai.
AbaasIrmãos.
MpaangiIrmãos.
AngolaPaís africano, da região centro-ocidental da África, de onde vieram escravizados.
CongoPaís africano onde vieram escravizados, Reino do Congo.
NigériaPaís da região ocidental da África de onde foram traficados os falantes yorubás.

O livro

Zambiapungas
Os Espíritos Brincantes

Capa do livro Zambiapungas — Os Espíritos Brincantes

Primeira incursão de Claudio Mendes na literatura infantojuvenil: uma história afro-brasileira sobre os brincantes Zambiapungas, contada da ancestralidade bantu até a madrugada de hoje — com ilustrações em cores plenas e um dicionário das palavras do cortejo.

  • AutorClaudio Mendes Oliveira
  • EditoraBailer Books · 1ª edição, 2025
  • Formato24 páginas · 20 × 20 cm · ilustrado
  • ISBN978-65-5304-091-5
  • ClassificaçãoLiteratura afro-brasileira · infantojuvenil
  • TemasCultura afro-brasileira · tradições populares · patrimônio
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Quem escreveu

O autor

Retrato de Claudio Mendes, autor do livro

Claudio Mendes

Pesquisador da cultura popular · Salvador, Bahia

Natural de Salvador, é pesquisador das manifestações da cultura popular, especialista em gestão social e patrimônio histórico e cultural, turismólogo, fotógrafo, gestor e produtor cultural.

Integrante do grupo cultural Zambiapunga da cidade de Nilo Peçanha desde 2003 — grupo que lhe deu a oportunidade de conhecimento, aprendizado e uma forte conexão com a sua ancestralidade afro-brasileira e a cultura popular tradicional.

Entre contos, ensaios e poesias, arrisca-se pela primeira vez na literatura infantojuvenil com esta história sobre os brincantes Zambiapungas.

@claudiomendesoliveira.oficial ↗
ZambiapungasOs Espíritos Brincantes · Bailer Books
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